Blog Eppifania - Arianne Morais

25 de dezembro de 2017

As minhas aventuras com Eduardo Galeano l Resenha #01

Memorizar datas sempre é uma tarefa difícil para mim, por isso que eu não quero arriscar uma data específica do dia que conheci, de fato, o escritor Eduardo Galeano. Chuto dizer que o conheci em meados de 2010, e o lugar do encontro não poderia ter sido melhor: numa biblioteca pública do estado de Pernambuco, localizada no centro da cidade do Recife. Foi através de um amigo que pude conhecer Galeano e os seus infinitos abraços através de grandes histórias.

 
Uruguaio, Eduardo Galeano (1940-2015) traz em seus textos uma mistura de inquietações que nos são poeticamente compartilhadas. A beleza, a emoção e o sofrimento sendo descritas em poucas linhas e que nos transbordam com reflexões. A minha primeira leitura de Galeano foi “O Livro dos Abraços”, da editora L&PM, com tradução do Eric Nepomuceno. E, segundo o tradutor, Galeano foi o único escritor a revisar com ele todas as linhas das obras traduzidas antes de serem oficialmente publicadas no Brasil. Isso mostra o carinho imenso que o Galeano tinha pelo nosso país.

Com uma mistura entre ficção, jornalismo, política e história, Galeano nos permite questionar sobre o papel das suas obras dentro de uma história das ideias, sendo positivas ou negativas, em relação a América Latina, principalmente na segunda metade do século XX. Não há dúvidas que o seu posicionamento nos permite concluir que Eduardo sempre manteve, ao menos em suas obras, um pensamento crítico, do qual considera fundamental avaliar e questionar a realidade latino-americana em relação direta a exploração, marginalização e discriminação que sofremos.
 

Foto pessoal @ariannecmorais


Li apenas três obras de Galeano, “O livro dos abraços”, “Mulheres” e "O Caçador de histórias”, em todos pude contemplar uma estética singular e provocativa através de suas palavras perfeitamente escolhidas nos seus minicontos. Até nas mais fantasiosas histórias, o leitor é convidado a entrar entre o fictício e não-fictício, nos quais saímos deslumbrados após as leituras.

Em uma nota do livro O Caçador de Histórias (2016), também da editora L&PM, Eric Nepomuceno diz:

Era de uma exigência assombrosa, de um rigor extremo. Conhecia [Eduardo Galeano] perfeitamente o português falado no Brasil, sabia descobrir a musicalidade das palavras, rearmávamos as frases para que, como dizia ele, ficassem “redondas”. Juntos, buscávamos palavras inexistentes para trazer ao meu idioma neologismos que ele criava no dele (p. 5).

Autor de “As veias abertas da América Latina”, obra que preciso urgentemente ler, Galeano traz em suas histórias questões políticas, filosóficas, pessimistas e de admiração. Temos uma leitura da América Latina como nunca vista, pelo menos para mim. Dessa forma, a sua obra de grande prestígio tanto de crítica como de leitores, “As veias abertas da América Latina” é considerada uma leitura clássica para os seguidores e estudiosos das filosofias anticapitalistas e anti-imperialistas na América Latina durante os últimos 40 anos. Entretanto, Galeano lamenta “que o livro não tenha perdido a atualidade”. Alguém que já tenha lido o livro concorda com o autor? 

Ao terminar o “O Livro dos Abraços”, um livro de histórias curtas, reflexões, sonhos, que como a maior parte dos livros de Galeano é difícil de classificar, eu tive a sensação de uma leitura não esgotada. Durante a leitura, somos apresentados num ritmo frenético a diversos mundos numa perspectiva singular e bastante poética de Galeano. Não há uma temática única que perpasse pelo livro, mas sentimos que há um pedido ao leitor: desperte-se às pequenas coisas que te circulam no mundo. Galeano consegue nos atingir no mais íntimo com suas breves palavras, sobre cotidianos que não são os nossos, mas que nos identificamos por estarmos na mesma América. Você vai gostar da leitura se tem interesses por histórias curtas, políticas, fantásticas e bem escritas... Retratando uma realidade do Uruguai, do Brasil (o autor amava muito o nosso país) e de pessoas comuns que ele conheceu do dia-a-dia. Entretanto, você não vai gostar se prefere que o livro tenha suas temáticas organizadas e divididas, e também com histórias que apresentem um começo, meio e fim.

Já no livro “O Caçador de Histórias”, obra póstuma de Galeano, posso dizer que o título é uma perfeita definição de como enxergo o autor: um caçador de histórias. Em todas as outras que eu li dele, eu senti essa sensação de caça às histórias pela América Latina e que conseguia escrever ricamente em poucas linhas. 

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 “O título também é dele. Ao final, quando estava fechando o livro, um amigo lhe perguntou como era possível que desse esse título, se não era capaz de matar nem uma mosca. Isso o fez pensar, mas ao final voltou à ideia inicial. Eu adoro. Ele era um caçador de histórias. Levava sempre consigo uns caderninhos onde anotava ideias. E se nutria das conversas que tinha com todo mundo, porque era um grande conversador”, disse o editor ao jornal argentino La Nación (achei esse trecho pertinente e foi retirado da matéria: Eduardo Galeano, o eterno caçador de histórias).

E, por fim, a minha última leitura dele foi “Mulheres”, que através de personagens femininos marcados por coragem, luta e intensidade,  Galeano compartilha conosco histórias femininas como Joana d'Arc, Eva Perón ou as Mães da Praça de Maio, Frida Kahlo, Camille Claudel... Por outro lado, ele também compartilha mulheres anônimas, como uma mulher que luta na Comuna de Paris, as que estão num prostíbulo da Patagônia argentina e que se negam a receber alguns soldados que tinham reprimido uma greve de peões da cidade local. Sempre com histórias curtas que conseguem dizer muito.


Deixo para vocês um trecho de uma história do livro O Caçador de Histórias:

“Nasci no dia 3 de setembro de 1940, enquanto Hitler devorava meia Europa e o mundo não esperava nada de bom. Desde muito pequeno, tive uma grande facilidade para cometer erros. De tanto errar, terminei demonstrando que ia deixar uma profunda marca da minha passagem pelo mundo. Com a sã intenção de aprofundá-la, tornei-me escritor, ou tentei sê-lo. Meus trabalhos de maior sucesso são três artigos que circulam com meu nome na Internet. Na rua as pessoas me param, para me parabenizar, e cada vez que isso acontece começo a desfolhar a margarida: – Me mato, não me mato, me mato... Nenhum desses artigos foi escrito por mim”.


Espero que vocês tenham gostado da primeira resenha de 2018!
Então, qual/is livro/s vocês estão lendo no momento?


19 de outubro de 2014

Epifania

Essa foi uma das minhas metamorfoses mais intensas. Estava sufocada em meu próprio casulo e a fechadura estava por dentro. Ninguém, além de mim mesma, poderia me salvar do meu próprio sufoco e da falta de ar. Quando o sentimento de vazio te drena por inteira e não consegues pensar mais em nada. Você quer chorar. Sim, você quer chorar, mas você não consegue e a explicação é tão ilógica que você não quer mais pensar tanto sobre isso, apenas quer sentir novamente a sensação da sua neutralidade sobre o mundo. 



Meus olhos estavam fadigados e demonstrariam rendição a qualquer momento, mas algo ainda me mantinha aqui e naquela hora eu não conseguia pensar nessa sutileza em que eu estava. Imaginei qualquer outra pessoa com liberdade e que poderia correr, gritar, chorar na hora que bem entendesse. Então, conclui, com as peças erradas, que tudo aquilo estava fora do lugar pelas minhas escolhas, atitudes e reações a diversas coisas que me transbordavam tristezas. Pude sentir meu coração efervescendo por uma resposta que já não mais existia. Senti, pela primeira vez, a sombra da morte se encaixar sobre minha própria sombra e sorrir para mim. Assustador. Não tinha mais forças. 

A minha respiração se esgotava cada vez mais, as memórias boas sumiam. Pude sentir escorrer sobre mim as poucas esperanças que me restavam, elas se alastravam por todo o meu corpo e depois se elevavam em grandes águas que desejavam me afogar. Meu espírito lutava por pensamentos que me salvassem, minha alma queria o sossego, meu coração queria uma cura. Como um corpo pode carregar tantas feridas e passar despercebido entre a multidão? Como a minha ferida não machucaria outra ferida e assim criar um ciclo de feridas após feridas sem fim? Me questionava sobre o que era viver, senão ter a capacidade de respirar e manter-se vivo. Mas me vinha sobre o que era ser vivo e o que era viver. Eu estaria viva ou vivendo? Ou estaria apenas numa vida sem saber o que era viver? 

A questão é que essa linha tênue entre estar vivo e viver é a própria essência que cada ser humano possui, a própria essência de estar vivo porque quer sentir sobre todo o seu corpo a alegria e o amor que a vida nos proporciona e a tristeza também. E, ficar vivendo, é apenas aceitar aquilo que aprisiona você. Viver é sinônimo da própria liberdade.  

Mas eu ainda estava no meu casulo. Com medo. Ansiosa. Entregue. E, então, a epifania me acertou bem no meio do peito e disse que eu era capaz de viver. O casulo se desmanchou e me deixou apenas migalhas daquele momento passado, me deixou as provas de que se pode viver entre uma metamorfose e outra.





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9 de fevereiro de 2014

Me beije


Éramos nós dois naquele cômodo. Você fechou a porta e me pediu para esquecer, por alguns minutos, os problemas dos nossos mundos. Ainda não te agradeci por isso, mas você me diria que não seria necessário. Senti sua mão quente pelo meu rosto e aquilo me deixou mansa, era como se alguma fraqueza tivesse sido descoberta. O que foi aquilo? Me vi sendo alcançada, de alguma maneira. Seus olhos nos meus, sua pele na minha e os nossos desejos se entrelaçando. Te recordo na minha mente, um pouco enlouquecedor, mas o seu beijo é de como quero ser beijada. Me desculpe, ainda não sei como arrumar tudo isso, me pediram paciência e estou tentando seguir. É que as peças dos seu quebra-cabeça ainda não combinam com todas as minhas peças, mas isso também me deixa à espera de algo inovador.




O meu corpo se tornou uma fatalidade contra o seu - me sinto entregue, vista e inalcançável. Como a devoção da abelha à sua colmeia. Aqui me transfiguro ao seu mel, apenas me encontre, outra vez. Lembro dos seus sussurros indecifráveis e me esforço para recordar de alguma palavra - em vão -, mas eles são os suficientes para te querer mais um pouco. É triste não te ter todas as noites. É triste não ouvir o som da sua voz. Sinto a vontade correndo pelo meu corpo e não podendo ser completa. Acredito que escrever tudo isso pode matar um pouco dessa ansiedade. Jogada na cama e olhando para o nada, me lembro do seu perfume desconhecido que eu aprendi a gostar. Ele é tão seu quanto eu sou sua em nossos momentos. Também devo dizer que quando seus olhos percorrem o meu corpo e você solta um ar com um pensamento de que eu sou sua, eu te digo, eu sou.

Estar com você me faz querer sempre estar e continuar nesse ciclo, sem fim. Fechar a porta e abrir as janelas. Querer te amar sobre a luz do sol e o escuro da noite. Teu toque é o suficiente. Quando seus lábios pronunciam o meu nome com todo o grave da sua voz, me fascina. Meus olhos te contornam, seus olhos me atingem. Seu corpo é o que eu quero, o querer do amanhã também. Me deitar sobre o seu corpo e realmente esquecer o mundo. Me beije como eu quero ser beijada, isso é tudo. Você sabe como fazer isso e me prende nesse teu jogo sem ganhar ou perder. Estou aqui fechando os meus olhos para aproveitar mais desse momento. Esconder essas palavras para depois recordá-las, enquanto você coloca aquela sua camisa bege e pergunta se está boa - mas ela é a sua preferida. Ou quando você coloca uma música aleatória para nós e ela sempre se encaixa nos nossos quereres. Se transformas na minha loucura e tranquilidade. Eu realmente queria ter agora. Me pegue pelos braços e sussurre no meu ouvido o que você queira dizer. Repito que você é o meu suspiro de uma noite fria. Apenas me abrace e diga que tudo ficará bem, porque já está. Não quero o tempo pare, mas também não quero que ele passe depressa. 

Sim, eu estou aqui. Me olho no espelho por um momento e sinto um conforto. Eu não mudei, eu estou bem aqui. Com você todas as coisas que me rodeavam se tornaram melhores. Segurei a sua mão. Deite-se comigo aqui e vamos esquecer os problemas de mais um dia. Eu quero que você fique essa noite e que permaneças pela manhã. Talvez isso possa não ser possível, mas não tornarei isso um problema de sete cabeças entre nós - esse momento é o que importa e o que sinto sobre ele. E, nesse momento, ele está se perpetuando dentro de mim e ficará. Me beije e me conte como foi o seu dia. Me beije e diga que irá ficar. Me abrace, conte os seus problemas, me deixe ficar um pouco mais com você. E, me beije.




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30 de outubro de 2013

Dias como este

Ontem não foi um dos meus melhores dias. Há dias que são ruins e outros bons. Mas ontem pude sentir o meu coração palpitar tão solitário como um cachorro abandonado na praça, sem remendos ou esperanças. Meus olhos tão pesados por derramar tantas lágrimas e meus soluços intermináveis de puro sofrimento. Tudo vem dando errado desde o começo e não quis enxergar. O meu corpo vem suportando muita coisa só porque o meu coração quis sentir. Estar apaixonada tem seus dois lados. Ser feliz e sofrer. Estou num meio terno incontestável. Fui feliz, mas agora sofro. E a solidão que me atinge tem que ser levada sozinha, por um tempo e quieta. Se queres fazer morada, ficas. Há cinco dias choro por um motivo que antes era tudo. Deixei ser levada por um sentimento tão forte, sentimento que passara apenas uma vez por mim e, agora, mais uma vez. Finais idênticos de pura melancolia, discórdia e dor. Será que os meus olhos os assustam?


Ou meu defeito de falar tão pouco. Quis ser amada de todo coração. Há uma necessidade nisso: Eu amo. Me ama? Mas não sou a pessoa certa. Gostei de cada defeito seu. Do seu modo de sentar na cadeira, da sua risada tão bruta, do seu cabelo bagunçado, da sua camisa tão repetitiva em todos os lugares, dos seus incontáveis sinais, das suas piadas estranhas e desengonçadas, da sua maneira de ver o mundo, do seu pessimismo exagerado, do seu perfume. Vivo cheia de interrogações. O porque de sentir tanto, ver tantos lugares ao mesmo tempo, a incerteza de onde estou e o segundo das minhas memórias plenas. Estou num período longo de estar estável. Nem bem nem mal, apenas morrendo. Afinal, morrer é algo natural da vida. Morrer de amor. Da falta dele. Não sinto o amor das pessoas que estão ao meu redor. Não sinto o calor que o amor proporciona. Estou com frio, todos os dias sinto um frio gigante me abater.

Uma vez me disseram que ver a morte de perto a torna ridícula, quero experimentar ser ridícula. Experimentar a dor rápida ou o sofrimento que levará a eternidade. Sentir minhas memórias irem se partindo, repicando as outras partes e das outras as outras, e chegar ao estágio nulo da vida. 

Me sentir capaz de tentar lembrar de algo e esquecer. Viver nessa procura de entender o meu passado e não encontrá-lo. Zerar a minha vida, meu espaço, meu tempo. Não quis te amar como eu amo agora, mas agora eu amo. Nossa linha tênue estar entre um coração palpitante e um coração tranquilo. Esse é o meu preço e estou prestes a pagá-lo. Não preciso de motivos para agradar os outros, esse é o meu e só acabe a mim. Apenas lembro do gosto da tua boca e sinto ela agora.

E eu tenho certeza que ninguém te amou como eu te amei.
Um final ridículo para uma vida ridícula.


15 de agosto de 2013

Isabelli e as suas pequenas manias


Cometi dois grandes erros quando conheci Isabelli. Me apaixonei pela sua resposta rápida, seu senso crítico e pela sua independência misturada com a sua beleza natural que me fazia questionar se ela era real ou não. Aqueles cachos que me rendiam um cheiro de casa arrumada e sexo em qualquer hora do dia. Aqueles seus lábios, não tão moldados, mas que me prendiam ao êxtase ao pegá-la mordendo o seu lábio inferior após ouvir uma pergunta chata ao nível do chefe do trabalho. É, Isabelli me rendeu esse primeiro grave erro. O erro dos meus olhos se renderem, da minha vontade aumentar, do meu corpo suar.  O segundo erro foi não considerar sua desculpa esfarrapa de sair mais cedo do barzinho por conta da saúde de sua mãe. Descobri mais tarde que ela mora sozinha e que tinha medo de sair à noite.


Isabelli tão erótica me fazia gozar por dentro com o seu andar de uma inocência fingida e com um salto alto de uma mulher. Parecia estar à espera do seu homem ou do homem que correspondesse aos seus olhos com puro fogo dentro de um quartinho de quinta categoria ou daqueles banheiros sujos de restaurantes assistidos em filmes - essa última cena sempre me vinha à cabeça quando ela pedia licença para ir ao banheiro e demorava uns quinze minutos e vinte segundos para voltar. Sim, teve uma noite que eu fiz questão de contar - aqueles minutos me levavam ao delírio porque eram os minutos suficientes para uma boa trepada. 

Mas ao observar melhor Isabelli, notei que eu gostava daquele seu batom vermelho em seus lábios não tão bonitos e do sinal em suas costas. O corpo de Isabelli, na verdade, o seu formato, era tão bem desenhado que minhas mãos poderiam mergulhar em suas curvas e me perder entre elas sem nenhum rancor. Meus pensamentos se estendiam porque Isabelli atendia os telefonemas aos sussurros e saia com pressa para um canto mais reservado. Fiquei sabendo que ela gostava de rosas vermelhas com um bilhetinho secreto para ficar se gabando no outro dia nos corredores do trabalho. Escolhi as melhores rosas e o melhor bilhete. Não queria mais fantasiar como Isabelli beijava, gemia ou trepava numa cama. Recebeu as  flores com o maior sorriso do mundo e sua amiga sussurrou que aquele cara do bilhete só queria sexo. Bem, ela respondeu que isso poderia ser uma boa ideia. 

Contudo, meus amigos, Isabelli não parava de esconder seu sorriso frouxo dentro do carro e nem parava de olhar ao retrovisor para conseguir olhar pra mim também. Um olhar de carinho com mistura de sacanagem. Mas, dentro do quarto, ela foi fazendo charminho e ficou meio perdida ao tirar as primeiras peças de roupa. Aquele quarto de motel mediano que nem era uma ou cinco estrelas, mas que cabiam nós dois no meio daquela cama bagunçada e um cheiro leviano de sexo. Sem janelas, sem ventilador. Apenas nossas roupas jogadas ao chão e um livro de Bukowski aberto ao lado de sua bolsa largada por ali. Calma, eu falei. Mas ela abria um sorrisinho e pedia para continuar. Depois de uns minutos descobri a verdade: Complexo de pinto. Escondia o rosto quando me via nu e senti no ar aquele sorrisinho falso querendo encobrir a vergonha do não sei o quê. Transar era no escuro. Não queria ver o que acontecia. Estava disposta, mas apenas de olhos fechados e só na posição tradicional. Aquela não era a Isabelli que me dava tesão. Fui tentando relembrar da Isabelli sensual, erótica, mulher. Dentro de uma noite e outra.

Mas não adiantou. Isabelli também tinha um sorriso que me dava paz, um perfume que me levava para uma varanda com rede e os seus cabelos encaracolados me levavam ao paraíso só em deitar minha cabeça sobre eles. Depois de um sexo estranho, perturbador e, incrivelmente,  gostoso, ela se deitava de uma maneira espetacular sobre mim e dava para admirar aquele sinal em suas costas. Uma cena que merecia uma recordação: aquele seu suor e a boca entreaberta, o seu perfume que ainda perdurava entre algumas horas. Isabelli não era uma fera na cama nem um anjinho também, mas me fazia pensar sobre a vida e de como era bom ter um momento sossegado em um quarto limpinho de uma mulher ainda não tão resolvida. 

Essa é a minha Isabelli. 

Ela

Ela
Olá, me chamo Arianne Morais e faço Letras na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Criei o blog Eppifania no final de 2010 com a intenção de compartilhar meus textos pessoais. Antes, eu adotava o pseudônimo "Arianne Barromeu", mas em 2017 isso mudou. Além de postar contos e algumas crônicas, o blog também conta com resenhas e indicações de livros.

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